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Alberto Granado, companheiro de viagem de Ernesto "Che" Guevara na viagem retratada em Diários de Motocicleta, visitou o set de filmagem durante a produção do filme. Granado tem 81 anos e mora com a mulher e os filhos em Havana, Cuba. Tivemos a sorte de ter a oportunidade de conversar com ele sobre a experiência de ver suas aventuras da juventude sendo transformadas em filme:
 

P: Como se sente em relação ao fato de um filme estar sendo feito sobre sua viagem com Ernesto?

Sinto-me bastante surpreso. Quem poderia imaginar que a viagem de dois jovens para descobrir a América Latina chegaria a isso? É claro que você tem que levar em consideração que tanto Ernesto como eu sempre vivemos de forma consistente com nossas convicções e, quase sempre, fizemos o que acreditávamos que devíamos fazer, cada um a seu jeito. Então, eu acho que sim, que talvez possa entender porque um filme seja feito. Eu nunca pensei, mas já vivenciei muitas coisas inesperadas na minha vida.

P: Como é voltar aos lugares por onde passou com Ernesto?

(Risos) Sempre digo a mim mesmo que tenho um coração à prova de ferrugem, capaz de agüentar todo tipo de emoção. Mas confesso que houve momentos em que cheguei às lágrimas, especialmente ao me lembrar das pessoas idosas, dos idosos doentes, que eram crianças de nove e dez anos quando passamos por lá. Então me sinto feliz e grato à vida, por todas as coisas que ela me deu.

P: E o que pode dizer sobre Walter Salles?

Sobre Walter? Posso dizer que estou impressionado. Impressionado com sua capacidade, com sua integridade, com sua tenacidade. Com a maneira com que repetia cena após cena - que para mim pareciam perfeitas mas que ele sabia que poderiam melhorar - até que conseguisse exatamente o que queria. Acho que tivemos muita sorte de ter um diretor de tão alta qualidade.

P: Ficou emocionado quando viu a motocicleta no filme?

(Risos) Sim, fiquei. Ela era encantadora também. Acho que Walter Salles fez um ótimo trabalho na cena em que nos despedimos da moto. Um trabalho tão bom que fiquei tão emocionado quanto fiquei há 50 anos, como se a estivesse abandonando agora, pobrezinha, embrulhada em seu manto. Houve dois momentos no filme em que chorei: um foi quando me despedi da moto e o outro foi quando cruzei o Amazonas.

P: Consegue ainda se lembrar da viagem real?

Sim, eu me lembro. Vivenciei muitas coincidências a este respeito. Passo por lugares que me lembram desse ou daquele detalhe da viagem. Vejo um homem e ele me lembra alguém que conheci na viagem. Vivo uma aventura e ela me faz lembrar alguma pela qual vivi durante a viagem. Então, quase todo dia tem alguma coisa que me faz lembrar. E além disso, ela faz parte da personalidade de Ernesto, não é? Porque para entender Che Guevara mais inteiramente, e não apenas através de seus discursos e de sua vida política, você também precisa saber algo sobre sua formação, sobre como cresceu, sobre suas viagens. Tudo isso me ajuda a nunca esquecer a viagem.

P: Quais são suas melhores lembranças da viagem?

Bem, são muitas. Mas para mim a parte mais emocionante foi em San Pablo, quando os leprosos vieram se despedir de nós. Eles chegaram em um barco onde os doentes estavam separados dos sadios. Era um dia chuvoso. Nunca vou me esquecer. Os pacientes chegaram tocando música, dando adeus e nos dizendo que os havíamos tratado como gente normal e que eles jamais se esqueceriam disso. Ficamos tão emocionados com aquilo que mal conseguíamos falar. Só lamento não ter podido tirar uma foto, porque estava chuviscando e não tinha luz suficiente. Tenho muitas recordações emocionantes mas esta eu nunca vou esquecer por causa do local, do dia, da hora e tudo o mais.

P: Ainda dirige motocicletas?

Não. Já não me permitem mais. Outro dia Gael me levou para dar uma volta e fui o co-piloto. Mas não o piloto. 80 anos é muita idade para se dirigir uma motocicleta. (Risos)